Cadáver



É difícil começar a escrever sobre algo que não existe em mim. Muitos falam sobre suas vidas, mas eu nunca a tive. Desde que me lembro, sempre estive selado a este cadáver, não me recordo de ter sido algo além disto. Alias tempo é o que menos me importa, tanto se passou que eu mesmo nem sei contar quanto foi.

Eu vejo as pessoas lá fora felizes, dizendo que amam suas vidas, que são seres cheios de alegrias, enfim, nada que eu possa descrever já que para mim é tudo tão artificial. Eu não sinto o que elas sentem, eu não sei sorrir após ver desastres, eu não sei valorizar este cadáver que caminha me carregando pelas ruas… Não consigo entender qual é o significado de valorizar tanto essa carcaça decrépita que apodrece pouco a pouco.
Talvez seja por que eu não saiba o gosto da vida… Muitas vezes me pergunto se essa felicidade tão esplendorosa é realmente verdadeira, diante de tantos problemas por que conseguem sorrir e eu não? Por que apenas eu enxergo a dor e o sofrimento? Qual a razão de alegrar-me se tantos choram?
Meu existir tem sido um luto eterno onde tudo que me acompanha é a vontade de viver… Sim de viver, eu nunca estive vivo.
Contudo sempre que penso em viver me prendo a lembrança de como é difícil conviver com pessoas que mentem e fingem o tempo todo. Como corja de psicopatas tudo que lhes interessa é o bem próprio. O amor não passa de mera palavra que se usa para cativar.
E por isso resido na intensa escuridão… Aqui me sinto livre, mesmo em melancolia e solidão, aqui eu posso sentir que não estou me iludindo. Mentir parece tentador, mas mentir para si mesmo é imperdoável.
Essa é minha sina, eu não estou aqui para enfeitar esse cadáver, esse pedaço de carne não me define, eu sou a consciência que vos fala… E mesmo triste por tanta dor a minha volta, eu sou livre…

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